Nota introdutória
Data de 2005 este texto sobre a figura do Forcado, escrito
pelo meu querido amigo Carlos Patrício Álvares "Chaubet" para o site
Toiros&Cavalos. É uma homenagem que pretendo fazer não apenas ao
"Chaubet", ou aos forcados, mas acima de tudo para recordar o site que
fundámos com o saudoso Eduardo Leonardo. Aqui vos deixo mais um texto
brilhante do nosso "Chaubet".
"Há mais de meio século que me interesso pelo Touro e pelo Forcado.
Vinte e dois anos vestindo a jaqueta das ramagens, depois como
observador atento e estudioso. Estas duas situações habilitam-me a poder
fazer um historial do Forcado, o seu nascimento, consagração e
desenvolvimento. Devido à confusão existente quanto à sua origem e à
apropriação indevida que as classes sociais mais elevadas pretendem
fazer do espírito do Forcado, parece-me oportuno esta análise.
O meu interesse por esta figura tão portuguesa, vem de achar ser o
Forcado, dentro da Tauromaquia Nacional, o mais fidedigno representante
da alma lusitana, do arrojo e espírito de aventura que nos levou mar
dentro, a descobrir novos mundos para o mundo. O Touro representa o
gigante Adamastor, que os nossos navegadores tiveram que enfrentar,
quando das descobertas.Só um Povo como o Português, seria capaz de
produzir um fenómeno como o Forcado. Digo Povo, porque foi realmente do
Povo que saíu o gosto pelo “pegar touros à unha” como se passou a dizer.
Quando o homem começou a capturar o Touro em vez de simplesmente o
matar, construiu cercados onde o colocar. Contudo, o Touro é um animal
nómada e por tal, muitas vezes, invadia pastos alheios, gerando com isso
atritos e discussões. Para evitar esses conflitos resolveu-se então,
arranjar forma de identificar o touro, dar a conhecer a sua procedência.
Cada possuidor de touros, passou a utilizar uma barra de ferro,
colocando numa das suas extremidades, uma sigla que o identificava.
Cerca de um ano após o nascimento de uma rês, posta em brasa a parte do
ferro que possuía a sigla, gravava-se esta nos quartos traseiros do
animal. A esta operação de ferrar o gado, ainda hoje utilizada, passou a
chamar-se “ferra”.
Ora para se aplicar o ferro, era necessário derrubar a rês que,
embora ainda jovem, já representava perigo e dava muito trabalho.
Constituía mesmo um espectáculo, presenciado por muita gente, o labor
dos intervenientes nesta operação. Os que se especializaram nesta
tarefa, porque agarravam os cornos dos bichos, tomaram o nome de
“mancornadores”. Simultaneamente trabalhadores agrícolas, utilizavam
para algumas das funções que lhes estavam atribuídas, uma forquilha com
três aguçados mas frágeis dentes.
Porém, quando começaram com o manuseamento do gado bravo, para não o
magoar inutilmente e para lhes dar mais consistência, substituíram os
três dentes da forquilha por uma estrutura metálica, parecida com uma
ferradura, com as extremidades arredondadas, que se fixava numa espécie
de cajado. A este instrumento, que lhes servia para manejar o gado,
deram o nome de forcado.
Ora os fidalgos, quando começaram a exibir-se em espectáculos
públicos, certamente por esses homens terem um contacto maior com o gado
bravo, levavam-nos para os recintos onde iam actuar. Designados como
lacaios, faziam parte das grandes comitivas que os cavaleiros fidalgos
sempre apresentavam. Iam munidos dos seus forcados, prontos a acudir a
qualquer percalço que pudesse vir a acontecer.
Ao lado dos seus senhores, entusiasmados pelos aplausos da multidão,
os mancornadores/lacaios, lembraram-se de pedir autorização aos seus
amos, para fazerem na praça, o que faziam quando das ferras e que tão
apreciado era. Os patrões, não prevendo o êxito que tal feito poderia
ter, autorizaram a pretensão. Mas rapidamente se arrependeram…
O sucesso dos seus empregados foi imediato, provando que, bem lá no
fundo, todos os portugueses se revêem no Forcado, têm no subconsciente,
um pouco da sua poesia, audácia e espírito de aventura. O público passou
a não prescindir da sua actuação, clamando muitas vezes pelos homens do
forcado, incitando-os “À unha!…À unha!”. Perante isto, os Senhores
resolveram proibir os seus subordinados de actuar – “se o fizeres vais
para a rua”. Disseram. Mas já era tarde.
Encorajados pelo apoio do público, os mancornadores/lacaios,
decidiram continuar autonomamente. O dinheiro que deixavam de ganhar por
serem despedidos, certamente seria compensado pelo que a assistência
lhes desse. Criou-se assim, o chamado “Forcado Profissional”.
Deste modo, confiados somente na generosidade falível dos
espectadores, passaram a enfrentar touros com idade, sem qualidade,
corridos e até ao reinado da Rainha D.Maria II, em pontas. Já não
falando na circunstância de que, para pegar, raramente haver grupo
constituído com antecedência. Os grupos formavam-se ad-hoc, muitas vezes
indo buscar às tabernas, os homens necessários para os formarem.
Inicialmente, o número de elementos que que alinhavam para a pega era
aleatório. Consoante o perigo que considerassem o touro apresentar,
assim se escolhia o número de pegadores necessários.
Se nos lembrarmos, como diz uma quadra que todos que andam nestas
lides conhecem, que para pegar um toiro “é preciso ter confiança na
malta”, vemos que para pegar toiros nestas condições, tendo que levar
farnel de casa e viajar a pé ou em terceira classe, para conseguir
poupar algum dinheiro, dormir ao relento ou onde calhasse, é preciso ser
muito valente, ter muito gosto pelo pegar toiros. Não era certamente
pelo que ganhavam, que o faziam.
Por isso considero estes homens com espírito mais de amador, do que alguns dos que, posteriormente, tomaram essa designação.
As touradas ganharam grande relevo e de quando em quando, o Rei e a
Corte iam assistir. Quando tal acontecia, armava-se um palanque para a
Corte se instalar. Uma rampa que partia da arena dava-lhe acesso. Para
impedir que houvesse algum toiro que quisesse fazer uma visita ao Rei,
sem ter pedido audiência, a defender esse acesso eram colocados
alabardeiros, uma força militar da altura.
Inspirados na táctica guerreira do quadrado, eram oito os elementos
que compunham essa defesa, a que se passou a chamar “Casa da Guarda”.
Como as lâminas das armas dos alabardeiros, estropiassem demasiado os
animais que investiam contra elas, considerou-se que oito “homens do
forcado” os podiam substituir perfeitamente e assim aconteceu. Foi
também a partir daí que se determinou que deviam ser só oito elementos a
fazer a pega. Limitação que modernamente não é respeitada. Se o toiro
dá muita luta, vemos saltarem três e quatro forcados, a que chamo de
“excedentários”, em ajuda dos oito iniciais, fugindo depois do toiro
parado, como se ninguém os tivesse visto.
O Touro desse tempo, animal selvagem, feroz mas não bravo, de
investida e derrote, agora, com o toiro de qualidade, seleccionado,
estudado cientificamente e tentado, se pode fazer, estava for a de
questão.
Embora nos dias de hoje, por desnecessárias, estejam banidas, nesse
tempo, para combater a falta de qualidade dos adversários, os Forcados
tinham várias formas de os pegar. omo apareciam muitos toiros com os
cornos tendencialmente na vertical, quer dizer, gravitos, havia a pega
de costas, que hoje, devido á correcção da córnea dos hastados,
dificilmente se poderia tentar. Quando o toiro tinha estas
características, não tinha muito peso, se não acudia ao cite,
recorria-se muitas vezes a esta modalidade. Enquanto o grupo, no meio da
arena chamava a atenção do cornúpeto, o pegador, correndo em diagonal,
aparecia-lhe, de surpresa, à frente. Ele investia, o pegador
enganchava-se nos seus cornos e seguia pendurado a trajectória que o
bicho percorria ao encontro da ajuda dos colegas.
Contudo, a pega mais corrente e também mais fácil, era a pega à meia
volta, a que os profissionais geralmente recorriam. Com o touro voltado
para as tábuas, o pegador surgia-lhe por trás e a curta distância
chamava-o. O animal voltava-se e investia contra o inesperado
adversário. Por lhe darem pouco terreno e a investida ser instintiva e
não preparada, esta era menos agressiva. Mas quando tal modalidade não
podia ser aplicada por o touro “abroncar”, não investir, se ele obedecia
ao capote, tentava-se a pega “à ponta do capote”. O peão de brega
levava o oponente embebido no capote e quando o largava, aparecia-lhe na
frente o pegador. Era também um embate em que o toiro era colocado
numa situação inesperada.

Igualmente a “cernelha”, injustamente chamada pega de recurso, era
utilizada nestes casos. Se nenhuma destas modalidades se podia aplicar,
vinha então a “pega ao sopé”, uma espécie de sai sempre, que os actuais
Forcados ignoram completamente. O toiro grande, bronco, encrençado, não
respondia a nenhuma provocação. O pegador aproximava-se dele até à
distância de um metro, metro e meio, o animal olhava-o, media-o, viam-se
os seus músculos a prepararem-se para a defesa, mas não arrancava. O
pegador então procurava que lhe chamassem a atenção e quando ele
desviava o olhar, metia-se praticamente entre os seus cornos,
obrigando-o, digamos, a investir. A pancada era violentíssima pois o
touro preparava-se para acometer. Era necessário fechar-se com rapidez e
ter bons braços.
Presentemente nenhum destes tipos de pega se pratica. Até a cernelha,
uma pega sempre bonita, está a cair em desuso. Os toiros são todos
pegados de largo ou a meia distância. Sucede ainda, que quando dentro da
trincheira, existe uma diferença de atitude entre o Forcado antigo e o
moderno.
No tempo em que os toiros não tinham qualidade e vinham para a praça
cheios de defeitos, tinha que se estar com atenção ao seu
comportamento, para se mandar o peão de brega tentar corrigir qualquer
anomalia que se notasse. Se metia as mãos à frente quando investia, se o
fazia adiantando um dos cornos, se marrava alto ou baixo, se
ensarilhava, se tinha ou não uma boa córnea, por vezes, se tinha algum
defeito de visão. Tudo isto podia acontecer no gado que nessa altura
aparecia. Por isso, dentro da trincheira, ninguém tirava os olhos do
toiro.
Agora os componentes dos grupos podem voltar as costas ao que se
passa na arena, cumprimentar os amigos e piscar o olho às raparigas. A
tentativa de pega é a habitual, de largo ou à meia distância. Depois é
só receber o bicho que responde de pronto ao cite, vem, rectilíneo e
entra bem e ter bons braços e boas ajudas. Mas, enfrentar um toiro a
corpo limpo, confiando somente na força dos braços, vontade, na ajuda
dos companheiros e na nossa habilidade e determinação, é sempre um acto
de coragem, por muito que, teoricamente, isso se apresente fácil.
Os Forcados, como passaram a ser chamados, simplesmente, os homens do
forcado, iam ganhando cada vez mais popularidade. Isso despertou a
atenção de classes sociais de nível mais elevado, que sentiram desejo de
terem o mesmo acolhimento da parte do público.
Numa demonstração inequívoca de que o pegar toiros está na índole dos
portugueses, sejam desta ou daquela classe social, não foi difícil
arranjar Forcados. Primeiro entre a nobreza, depois entre a burguesia.
Ao contrário do que os ditos profissionais faziam, não pediam nem
recebiam qualquer paga pela sua actuação. Mas não pegavam todas as
ganadarias e só entravam em corridas para amadores e normalmente, de
beneficência. Começaram também, a dar mais espectacularidade à pega, não
se confinando apenas à pega à meia volta.
A sociedade foi-se modificando, tornando os homens mais desejosos de
um bem estar e protagonismo que dantes pouco ambicionavam. A Tauromaquia
tornou-se um negócio. Se bem que fosse a sua aficion e não o lucro que o
levava a pegar, o Forcado Profissional, já que o espectáculo
tauromáquico era um negócio rentável, passou a considerar injusto e
exíguo o que recebia. Começou por isso a rarear, quem se dispusesse a
ser Forcado Profissional.
A machadada final que lhe deram, foi quando surgiu, em 1944, um grupo
amador – o Grupo de Forcados Amadores de Lisboa – a propor-se pegar
todas e não somente algumas ganadarias.
Na altura existiam apenas cerca de vinte forcados que se intitulavam
profissionais, que se dividiam pelos quatro grupos sobreviventes: Grupo
de Vila Franca, de Alcochete, Riachos, de Salvaterra e de Lisboa. O que
saía de Cabo numa corrida saía como simples elemento. Tivemos assim o Zé
da Vila chefiando o Grupo de Vila Franca; Artur Garret o de Alcochete;
Serra Torres o de Riachos; Manuel Faia o de Salvaterr e Matias Leiteiro o
de Lisboa. Este Grupo aliás, quando comandados pelo valente Adelino de
Carvalho, conseguiu um nível exibicional que nunca nenhum outro tinha
alcançado. Foi o último a desaparecer. Os espectáculos multiplicaram-se e
os grupos profissionais acabaram. Mas o gosto de pegar toiros
manteve-se naqueles que, eventualmente, podiam fazer parte deles.
Entretanto, a existência de um grupo amador a não recusar corridas, a
pegar todas as ganadarias, levou os outros grupos amadores da altura, a
fazerem o mesmo. No entanto, para entrar no esquema de se pegar toiros
de todas as ganadarias, não havia nas classes mais privilegiadas, número
de voluntários suficiente.
Passou-se então a recrutar gente, entre aqueles que teriam ido para
profissionais se ainda os houvesse. Os grupos de amadores, passaram
assim, a ser para eles, veículo de promoção social, escola de boas
maneiras.
A par de toda esta movimentação, do mesmo modo havia, nas ganadarias,
um cuidado minucioso com a criação do toiro de lide, que cada vez tinha
mais qualidade. O que, igualmente, ia facilitando o recrutamento de
jovens forcados.
É que, apesar de como já disse, pegar um toiro ter sempre perigo, o
sabermos que o toiro, de uma forma geral, tem um arranque pronto e
franco, investida e corrida rectilíneas e derrote vertical, ajuda a
adesão de candidatos a pegadores. De tal maneira que parece ter-se
tornado moda ser Forcado.
Igualmente o 25 de Abril teve influência neste surto de grupos de
forcados. A seguir à restituição das ganadarias, começaram a aparecer
nos espectáculos tauromáquicos animais com pouco peso e, isso é que
conta, com pouca idade. Eram os chamados novilhos/toiros que, como se
sabe, têm menos perigo que um touro feito.
Estas serão as razões que explicam a existência de quase quarenta
grupos de forcados, cada um deles, pelo menos os principais, com 20, 30,
40 e até mais candidatos…
Também, porque vivendo nós agora, numa sociedade em que a aparência, o
dar nas vistas, o fazer-se notado, é factor importante para se ter
êxito, o ser-se Forcado, é uma óptima forma de conseguir visibilidade.
Evidentemente, no meio dos verdadeiros Forcados que, felizmente, vão
aparecendo, há uma grande maioria que só pretende é poder dizer é
forcado, que pertence a este ou aquele grupo. Anda por lá três ou quatro
anos, faz meia dúzia de pegas e retira-se com lágrimas nos olhos e
volta à praça aos ombros dos colegas.
Mas pronto!… o tempo e a mentalidade são diferentes. Agora é assim e
ponto final. Há cinquenta, sessenta anos atrás, pegava-se por pegar, o
Forcado era motivado por um desejo pessoal de testar as suas capacidades
perante o perigo. Não tinha qualquer objectivo a alcançar, nem o fazia
para agradar a alguém ou para se fazer notado. Quando chegava a hora de
se retirar, fazia-o com a mesma discrição com que tinha entrado, sem
lágrimas, voltas à arena ou saídas em ombros. Pegava oito, nove, dez,
quinze e até, vinte anos. Enquanto se sentisse com ânimo e vontade para o
fazer.
Por resta razão, por ser mais trabalhosa a pega ou por os toiros,
grandes com idade e sem qualidade, imporem mais respeito, nesse tempo
havia somente três grupos de forcados organizados e um que aparecia
acidentalmente e com várias designações. Eram o Grupo de Forcados
Amadores de Santarém, que foi chefiado por António Abreu, D.Fernando de
Mascarenhas e depois Rhodes Sérgio, o Grupo de Forcados Amadores de
Montemor, chefiado por Simão malta e depois Joaquim Capoulas, o Grupo de
Forcados Amadores de Lisboa, chefiado por Salvação Barreto. Chefiados
por Duarte Noronha, antes de este ingressar no Grupo de Santarém, mas
sempre com os mesmos elementos, apareceram esporadicamnte: o Grupo de
Forcados Amadores da Malveira, Amadores Açoreanaos, da Estremadura, os
Manuéis, do Ribatejo.
Por outro lado, destes grupos, só Santarém e Montemor tinham número
suficiente de forcados. Mesmo assim não iam além de dezoito ou vinte.
Mas enfim os tempos são outros.
O ambiente em que as gerações que se vão sucedendo se movem, está
sempre em mutação. Haverá sempre uma geração a desfazer na que a
precedeu ou a atacar a que lhe sucede. A actual dentro de anos será
passado, também irá sofrer censuras e ataques e assim sucessivamente.
Assim, não pretendo atribuir quaisquer louros para o tempo em que fui
Forcado. A valentia, o gosto pelo pegar touros, já tenho dito e repito,
não é monopólio de qualquer geração. Mas que havia muito menos
candidatos a Forcado, é uma verdade…
Seja como for, continuo a vibrar e a bater palmas a uma pega bem
executada, a admirar os rapazes que se atrevem a enfrentar um toiro."
Carlos Patrício Álvares (Chaubet)